terça-feira, 31 de maio de 2011

Sono leve, quase como um pré-estágio, um meio termo; Qualquer ruído a despertaria. Despertou. Vinha da sala. Passos, sussurros e o clima cada vez mais tenso. Ao descer a escada, deparou-se com nada. Voltou a deitar, porém, agora, nem fechar os olhos era capaz. Foi tomada por sensações estranhas, como toques, um sopro gélido e amedrontador. Mesmo com medo, sorria.
Na manhã seguinte, tudo estava bem; Mas ao passar pela sala, na mesa de centro havia um embrulho. Esforçou-se para lembrar quando havia deixado-o ali. Pensou em abri-lo, mas na correria de sua rotina inquebrável, simplesmente o ignorou. Assim que chegou em casa, foi direto para a sala, e ele não estava mais lá.
Ao deitar-se, novamente ouviu ruídos. Novamente desceu a escada e, novamente: nada. Mais uma noite sem dormir, mas seu riso interno já diminuíra. Na manhã seguinte, o que havia ocorrido nas noites passadas começou a pesar um pouco em sua mente, e mais que depressa, correu até a sala, e lá estava ele. Agora, não abriu-o por medo. Chegando em casa, cautelosamente direcionou-se à sala. O feito repetiu-se.
E naquela noite, tudo exatamente igual, exceto o medo, que ia tomando-a cada vez mais. Ela não sabia exatamente de quê, ou porquê; Pensou em trancas novas, um cão vigia. O fez. Nenhum efeito. Pensou em suicídio antes de dormir... E naquela noite, nada mais se ouviu, além do silêncio quase absoluto, apenas interrompido pelo pulsar irregular de seu coração. Ao acordar, tudo estava igual, nenhum embrulho. Finalmente havia acabado a tormenta. Seguiu seu dia normalmente, quis apagar totalmente seus últimos dias sem uma explicação lógica. Chegou em casa, não queria mais nada além de um bom banho e sua cama para recuperar as noites perdidas. Teria recuperado, se não houvesse algo estranho esperando-a na sala. Ao vê-lo outra vez lá, um grito mudo explodiu do fundo de seu peito. Decidiu abrir o dito embrulho, e ver enfim o que era. Não acreditava no que estava vendo, afinal, todo esse tempo, esquivou-se apenas de uma caixa de bombons. Aliviou-se. Até voltar a sentir o sopro gélido, agora ainda mais sombrio. "Isso tudo não passa de criações de minha mente" - repetia sempre. Assim que saiu do banho, foi direto até os bombons, com o intuito de comê-los, mas agora, estavam repletos de bichos, insetos. Não só os doces, como a casa toda. Não demorou muito, e ouviu novamente passos; Nem precisou ir até à escada, os passos já vinham de lá. Cada vez mais próximos, cada vez mais fortes. Ela, imóvel. Ele apareceu na porta.
"Tu? Mas, pensei que, que estavas..." - "O que? A sete palmos do chão? Claro que não. Não ainda, não podia ir sem deixar-te uma lembrança." - "O que queres, afinal?" - "Apenas retribuir-te." - "Acha que uma caixa de bombons é suficiente?" - "Oh, não sejas tola. A caixa de bombons foi apenas o convite, ou melhor, o aperitivo, já que, sempre foi tão fácil suprir-te com presentes... Confesso que me surpreendi pela demora.Sabes que jamais foste capaz de ser verdadeira, sempre pensou que eu não desconfiava de teus planos e tuas trapaças. Tudo não passou de um jogo, mas o que não sabes, é que quem está controlando-o sou eu. És só mais uma peça." - "Não sei do que estás falando. Eu não seria capaz de nada que pudesse prejudicar-te, sabes que..." - "Não me venhas com palavras e mais palavras, desperdiçadas desta forma." - "O que vai fazer agora?" - "Está com pressa? Tudo bem, então. Vistes o que aconteceu com seus bombons, não é? Pois bem, poderia simplesmente fazer como tu, e cavar tua própria cova. Mas, isso não seria bom. Serás meu bombom, e, vou saborear-te lentamente, e da mesma maneira. Agora sim, teu desejo de me ver abaixo da terra estará completo e veja só, com direito à acompanhante e vale refeição. Aproveite o passeio!"